"Nunca disse isso". Presidente do IHRU nega ter mandado jovens emigrar mas reconhece declarações infelizes

"Nunca disse isso". Presidente do IHRU nega ter mandado jovens emigrar mas reconhece declarações infelizes

Num comunicado enviado às redações, Benjamim Pereira esclareceu que “em momento algum disse que os jovens não tinham dificuldades ou que não estavam a sofrer”. Aos jornalistas esta manhã, disse ser “mentira” que tenha sugerido a emigração.

Joana Raposo Santos, Carlos Santos Neves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Lusa

O presidente do conselho diretivo do IHRU esclareceu esta sexta-feira, em comunicado, as declarações polémicas sobre o “nível de sacrifício” da sociedade atual, frisando agora que “não se pode exigir aos jovens de hoje os sacrifícios de outrora”.

“O que fiz foi um paralelismo com o passado, evidenciando através de um exemplo pessoal, que a habitação sempre foi um problema neste país e que os portugueses sempre valorizaram e se sacrificaram muito para poderem ter uma habitação própria”, elucidou.

“Quando digo que se sacrificaram, é com tristeza que o constato, e não com algum tipo de saudosismo. Como é evidente, não se pode exigir aos jovens de hoje os sacrifícios de outrora, o que significaria que nada tínhamos conseguido melhorar em mais de 50 anos de democracia”.

"Não foi também referido nas inúmeras notícias o respeito que referi ter pelo direito de manifestação e a compreensão que expressei pelas exigências dos manifestantes", lê-se no comunicado. "Muito menos aludi, em momento algum, à emigração".

"Muito pelo contrário, não tivesse eu sofrido na pele a ausência dos familiares, exatamente nesse contexto de exigência que os forçou a sair. Os nossos jovens fazem-nos muita falta, são desejados e têm sido permanentemente convidados a ficar, assim como outros que outrora saíram têm sido convidados a regressar".

No entanto, “embora sem qualquer intenção”, o responsável disse aceitar “não ter sido feliz em todas as expressões” que utilizou.

“Mas acredito no que estou a fazer, acredito no caminho delineado pela tutela e dou todos os dias o meu melhor, colocando ao serviço dos portugueses a minha experiência profissional e política adquirida ao longo de anos de trabalho e de serviço público”, acrescentou.
“Isso é mentira”

À mesma hora em que era divulgado o comunicado, Benjamim Pereira foi questionado pelos jornalistas. Confrontado com a posição do ministro da Habitação, que disse à TVI na última noite ter considerado as declarações “infelizes”, o presidente do IHRU recusou-se a comentar.

“Não vou comentar nada disso”, frisou. “Hoje de manhã saiu um esclarecimento a enquadrar devidamente as minhas palavras e está lá, tudo direitinho, aquilo que deve ser entendido”.

Questionado sobre se irá colocar o cargo à disposição, insistiu que o comunicado transmite o seu posicionamento.

“Eu limito-me a trabalhar. É a minha função”, assegurou.

Quando questionado sobre se considera que os jovens devem emigrar, afirmou: “Eu nunca disse isso. Isso é mentira”.
“Os jovens já fazem sacrifícios todos os dias”

Em comunicado divulgado esta sexta-feira, o Conselho Nacional de Juventude (CNJ) vem juntar-se ao coro de críticas às declarações do presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. A plataforma que representa organizações juvenis considera que “as palavras” de Benjamin Pereira “estão desfasadas da realidade vivida pelos jovens”.

O CNJ considera mesmo que as posições assumidas pelo responsável “transferem para uma geração a responsabilidade de uma crise habitacional que é estrutural”.

“Os jovens portugueses já fazem sacrifícios todos os dias. Saem de casa dos pais perto dos 30 anos, mesmo quando trabalham. Adiam projetos de vida e de família por falta de casa. E cerca de um em cada três jovens nascidos em Portugal vive hoje no estrangeiro, muitos por necessidade e não por escolha”, lê-se na nota da plataforma.

Citado no comunicado, o presidente do Conselho Nacional de Juventude, Francisco Garcia, recusa que “se ponha em causa o esforço de uma geração que estuda, trabalha e, ainda assim, não consegue ter uma casa”.

“Os jovens não precisam de lições sobre sacrifício. Precisam de políticas de habitação que funcionem e de responsáveis públicos que conheçam a realidade que têm a obrigação de mudar”, completa.

O conselho “lamenta que esta leitura venha precisamente do responsável pelo organismo público que tem por missão garantir o acesso à habitação”, prossegue o comunicado, para acrescentar que “quem dirige a política pública de habitação deve apresentar soluções, não pôr em causa o esforço de quem não consegue aceder a uma casa”.

O Conselho Nacional de Juventude defende, como respostas à crise, “o aumento da oferta de habitação, com o reforço do parque habitacional público como prioridade efetiva, uma discussão séria da lei das rendas, que estimule a colocação de casas no mercado sem penalizar os inquilinos” e “a manutenção dos limites atuais às rendas antecipadas e à caução”.

“Permitir que os senhorios exijam três rendas adiantadas, em vez das duas atuais, e eliminar o teto à caução, hoje limitada a duas rendas, não aumenta a oferta. Apenas sobe a fasquia de entrada no mercado de arrendamento para uma juventude cada vez mais afetada pelo aumento do custo de vida”, remata a plataforma.
Debaixo de fogo

O Governo, pela voz do ministro com a tutela da Habitação, já veio admitir que não se revê nas declarações do presidente do IHRU.

Em declarações à TVI, Miguel Pinto Luz considerou “infeliz” a intervenção de Benjamim Pereira, contrapondo que o Governo de PSD e CDS-PP tem procurado encontrar formas de os jovens permanecerem no país.

O governante evitou ir ao ponto de retirar a confiança política “em direto” a Benjamin Pereira, embora tenha sublinhado que pediu explicações ao IHRU.

O PS classificou como “intoleráveis” as declarações do presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, ao passo que o Bloco de Esquerda já sinalizou que pretende ouvir o presidente do IHRU, com urgência, na Assembleia da República.

O presidente da Câmara do Porto diz que as afirmações de Benjamim Pereira não refletem o pensamento da maioria dos políticos. Pedro Duarte garante que os protestos estão a ser ouvidos.
Há ainda críticas a saírem de estruturas representativas de estudantes, como a Federação Académica de Lisboa, e do movimento Porta a Porta.
Oriana Barcelos - RTP Antena 1
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